silêncio

o silêncio agora vai percorrer as áreas mais inóspitas da casa. milímetro cubico por milímetro cubico vai se materializar em particula gasosa e então ser capaz de me levitar. me levar para um mundo distante como se meu peso real, formado por milhões de particulas gordurosas, sólidas e enrugadas, de nada bastassem.

rascunho de mariposas

tudo que eu queria agora era raspar minhas entranhas. mas não vamos chama-las de entranhas, esse nome robusto não me serve. só quero raspar meu estomago e livrar-me dessas mariposas negras que o povoam.

mariposas negras no estomago aparecem quando você sabe que algo de ruim está para acontecer. e você sempre sabe, mesmo quando aquela sensação boa acaba de te preencher. é aí que seus ouvidos começam a ficar atentos.

atentos para o barulho das asas batendo umas com as outras. quanto pior, maior a quantidade delas. e mais, e mais. desorientadas como você, elas tentam voar na escuridão trazendo ao seu ouvido os ecos mais aterrorizadores que você poderia crer.

Minhas viagens

Aos 7 anos viajei pela primeira vez. Viagem de família com destino ao interior, para ver mais família. Ainda sinto comigo o cheiro do álcool que esquentava enquanto o carro, ligado na garagem, esperava terminarmos nossos últimos detalhes. A família, já não sinto.
Neste dia, descobri como era bom o sabor do vento da baía ao passar pela ponte. Foi a primeira vez que fechei os olhos de encontro ao desconhecido. Aos poucos, descobri que o vento, contundente e frio, rasgava e ruía o tecido do meu rosto macio de criança. Descobri que não me importava com a dor, sensação esquisita que todo mundo reclamava, mas que nunca me fez sofrer. Ao fim da viagem, descobri que também não me importava com despedidas.
Naquela semana, ganhei a primeira mala que me acompanha até hoje. Sair do eixo nunca me pareceu incorreto, se eu estivesse com ela. Quadrada, larga, marrom e de couro, ela nunca perdeu o cheiro de álcool da primeira vez. Os adesivos, que nunca se soltaram, e os rabiscos, feitos de caneta permanente, foram feitos mais tarde quando voltei a viajar, desta vez numa viagem até o estado vizinho, para ficar.
Mudei de eixo mais quatro vezes até quebrá-lo de vez. Me mudei para minha mala, recentemente remendada com tecidos de roupas antigas que achei na minha última mudança.

Aproximações

Sozinha no terraço há pelo menos 2 horas olhava para o céu, para rua, para os carros. De joelhos, de pernas cruzadas, de barriga para cima, de bruços, de todos os jeitos era fácil ficar e difícil sair. Enumerar o cotidiano tinha se tornado meu passa-tempo preferido. Já tinham passado dois pássaros grandes e um avião sobre mim. Lá em baixo eu vi 13 cachorros passeando com seus donos, 5 cachorros de rua sozinhos, 2 gatos no prédio vizinho, dezenas de pessoas, centenas de carros e uma charrete. Contar o que passava por mim sempre pareceu mais interessante do que contar o que se passava em mim. No alto do 12º andar parecia ainda mais fácil. Mais próximo das nuvens, mais distante do concreto, mais próximo do vento, mais distante de você. Tinham 4 grandes nuvens na minha cabeça naquele dia. Quatro era a quantidade mais divertida de se observar. Mas não naquele dia. Naquele dia quatro foram os meus problemas, quatro foram as minhas dúvidas, quatro foram as vezes em que subi na bancada. Eu precisava me aproximar de você. De uma vez eu pulei.

viver
pra dizer
que eu quero te ter

(14 junho 2008)

engano
empate
espanto
escape

“durval, esquece!”
teu amor não me aparece,
só enlouquece.

pernas bambas,
loucura, eu disse que tu me amas!

não te desfaças
deixe que eu te enlaçe
laço frouxo, roxo

a velha poeira que enche os olhos esconde o brilho e traz as ranhuras. ranhuras leves e distintas mas que mesmo assim não te deixam sossegar.

onda viva (de novo)

esconde-te nas ondas
ondas de mares?
quantas
a quantas andas tuas ondas?
ondas vem,
ondas vão,
horas ficam.
onda vai,
onda viva
vai e vem
onda e brisa

fica lá
vem pra cá
distoa
turva
onda fica
fica viva

te faz esquecer da vida.